quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Opinião: Afinal - Ceilândia é Brasília? Brasília é Ceilândia?

Esta é uma pergunta que eu como cidadão nascido ceilandense e morador da cidade por praticamente a vida inteira (no momento a necessidade me força a viver em outro lugar, mas agüente que eu vou voltar já, Minha Cidade!) ainda me pego fazendo. A certidão de nascimento atesta que sou filho da cidade de Ceilândia. Minha identidade diz que sou natural de Brasília-DF. Não acho natural que alguém nasça em uma cidade e seu documento principal diga outra coisa, isto é basicamente uma falsidade ideológica imposta. Se você visita outra região do Brasil e alguém te pergunta de onde é, é quase que obrigado a dizer Brasília, afinal para moradores de outros Estados as regiões administrativas não existem. E tecnicamente não existem fora daqui. Embora isso fira cultura e geografia.

Há cerca de um ano e quatro meses, durante o feriado de 12 de outubro de 2010, a administração regional de Ceilândia organizou o show da conhecida dupla Jorge & Mateus. Em certo momento do show, um dos cantores exclamou: “- Obrigado, Brasília!”. Quase que instantaneamente jovens em locais diferentes gritaram: “- Brasília, não, aqui é Ceilândia!”. Essa situação a princípio pareceu-me apenas brincadeira daqueles adolescentes, mas, parando para pensar depois, percebi que aquilo era o puro reflexo de uma identidade cultural própria daquelas pessoas. Já havia ido a dezenas de shows em cidades do DF, mas nenhuma vez tinha flagrado um movimento grande de pessoas contestarem quando os artistas chamam sua respectiva cidade de Brasília.
Sempre existiu certo desconforto com a identidade brasiliense por parte dos moradores da cidade. Isso muito se deve ao tratamento que a cidade tem por parte do governo do Distrito Federal, desde o princípio os moradores da cidade eram vistos como “indesejáveis”. Ceilândia só entra no mapa do DF quando chega eleição, aí todo deputado “mora em Ceilândia” e todo deputado “ama Ceilândia”. A região administrativa vira a menina dos olhos quando se fala em suas centenas de milhares (ou milhões segundo alguns) de habitantes, essas pessoas são invisíveis para as políticas de saúde e educação, mas são sempre lembradas de Quatro em Quatro anos, afinal, votar é obrigatório, e essa humilde cidade (satélite) é crucial para os rumos da decisão eleitoral. O número de moradores da cidade também tem aproximado grandes empresários que vêem nela potencial esmagador de mercado e acham uma boa idéia abrir filiais na cidade ou mesmo tentar chamar a atenção desse público, o que é bom pra cidade, mesmo com polêmicas como a do futuro shopping (que seria de Ceilândia) e é situado em Taguatinga Norte (M Norte)...

A mídia também colaborou ainda mais com esse afastamento, durante anos os ceilandenses atletas e artistas de sucesso eram tratados como “orgulho de Brasília”, enquanto em boa parte dos assuntos relacionados à violência era apontada como “Em Ceilândia, cidade satélite há 40 km de Brasília...”. Isso associou erroneamente a cidade à violência. Basta digitar o nome da cidade num site como o “YouTube” para ver que os vídeos de maior acesso tem a ver com violência. A lógica é simples: se é ruim é Ceilândia, se é bom é Brasília. Ao menos para alguns. Enquanto nossa amada cidade tem ainda muito a ser feito na questão de saneamento e urbanização, o rico setor Noroeste tem tudo planejado e começando a entrar em execução. Não seria um problema para mim não fosse o fato de ser uma cidade que não existe e oficialmente sem morador algum. A invisibilidade da cidade aos olhos de “Brasília” é tanta que o famoso grupo “Câmbio Negro”, sensacional banda de Ceilândia que misturava rap com rock, antes mesmo de isso virar a moda que virou, jamais é lembrada quando se fala das bandas brasilienses, enquanto que grupos totalmente desconhecidos do grande público são colocados em evidência.
Felizmente agora surge um número crescente de entusiastas do orgulho ceilandense. Adirley Queiroz, multi-premiado por seu curta “Rap – O Canto Da Ceilândia”, recentemente recebeu a honraria máxima no Festival de Tiradentes com o filme “A Cidade É Uma Só?” que trata de certa forma desse mesmo assunto. Existem também alguns blogs (como o próprio 100% Ceilândia), ONGs e grupos artístico-culturais que engajam na causa. A discussão poderia preencher páginas de um livro, mas prefiro não fazer isto mais longo que já está. Ceilândia não quer independência, quer respeito. Ceilândia não quer mais que as outras cidades, quer é sua parcela justa e proporcional de direitos. Certa vez vi no Correio Braziliense uma entrevista de um engajado no movimento pelo direito da população negra que afirmava: “Os rappers da Ceilândia estão chegando a São Paulo sem precisar pedir a benção ao Plano Piloto.” Concordo com esta afirmação e acrescento: Melhor é ter o Plano Piloto como aliado, mas se não for possível vamos em frente sem precisar pedir a benção.
                                                                  
Tiago de Lins


Fonte: Tiago, por e-mail

Um comentário:

blog do GTS disse...

Ceilândia está a 24 kms de Brasília. Dependendo do ponto para onde vai, pode ser 20 Kms ou no máximo 27 kms. O problema é que aqui no Distrito Federal, quer você queira ou não, só existe um município, que é Brasília. Quando você entra no Distrito Federal vindo de qualquer cidade do entorno(goiás) sempre vai estar escrito: "Divisa de município - Águas Lindas de Goiás/Brasília( e não Ceilândia, como seria o certo caso Ceilândia fosse um município). Por isso não importa onde você mora dentro do Distrito Federal, você mora em Brasília, pois os carros são emplacados como Brasília, more você em Ceilândia, Taguatinga, Gama, Lago Sul, entre outras regiões administrativas.